A “sharing economy” é mesmo partilha?

Mar 20, 2017

A “sharing economy” é mesmo partilha?

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Este inverno, enquanto procurávamos destino para um muito desejado retiro de Inverno com a família, decidimos experimentar uma solução que há muito me intrigava. Já tínhamos ouvido falar deste tipo de plataformas e, nas pesquisas feitas, a www.guest2guest.com pareceu-nos a mais fiável. Entrámos e começámos a procurar alojamento nos Pirenéus. Depois de várias tentativas encontrámos um sítio que reunia as condições que procurávamos: perto de Barcelona, por motivos familiares, de estações de ski, por motivos lúdicos, e com pouca densidade habitacional, para aproveitar o ar de montanha e os passeios em família. O funcionamento é em (quase) tudo semelhante ao AirBnB. Encontra-se uma opção que nos agrada, lê-se sobre os proprietários e envia-se a primeira mensagem. Fizemos o pedido de reserva, recebemos a confirmação e combinámos a entrega da chave. Uma pequena diferença, não se fala de dinheiro nem de pagamentos. Quem usa este tipo de plataformas não pretende ganhar dinheiro a alugar o seu apartamento, quarto extra ou segunda casa, tal como não pretende encontrar na plataforma alojamento mais barato que o dos hotéis e outras alternativas. Pelo contrário, dá um pouco daquilo que tem e recebe um pouco do que têm os outros em troca. Quem põe a sua casa à disposição, sem períodos de disponibilidade obrigatória, tem centenas de outras casas que pode utilizar. Pensando bem são centenas de tipologias de casas e destinos que passam a estar ao nosso alcance, com o “custo” único de partilhar um pouco do que é nosso.
Plataformas como a UBER, o AirBnb ou todas aquelas a normalmente nos referimos como “sharing economy” ou economia da partilha, vieram de facto abalar os mercados em que se inserem e trazer possibilidades adicionais de remuneração a proprietários e investidores, bem como alojamento competitivo e deslocações cómodas e baratas a utilizadores. É legítimo, útil e até disruptivo, mas não é partilha. O intercâmbio difere também das outras plataformas num fator fundamental, a confiança. Enquanto nos exemplos dados o utilizador continua a contratar um serviço, no caso das plataformas de intercâmbio de casas trata-se apenas uma troca, uma partilha. O que rege o nível do “serviço” é o princípio básico de não fazer na casa de terceiros o que não faríamos em nossa casa. É um princípio bastante simples e universal, que deveria ser aplicado em todas as circunstâncias, mas quantas pessoas não se comportam assim?
Acabámos as férias com vontade de repetir a experiência mas, bem mais importante, com a convicção reforçada de que ainda é possível “construir” com base na partilha e na confiança entre pessoas que não se conhecem. Se pensarmos na quantidade de recursos não-utilizados (ou pelo menos com largos períodos de não-utilização), entre casas vazias, carros parados, ou até vestidos guardados nos armários, o crescimento deste tipo de soluções vai evitar muito desperdício e dará acesso e oportunidade (de diversificar as férias, usar roupas diferentes ou conduzir carros distintos) a muitas mais pessoas. Como livros lidos nas estantes à espera de serem trocados. Este Inverno tivemos uma casa de férias ao custo de um “muito obrigado” e duas garrafas de vinho (português claro!). Ah, e vamos ter hóspedes franceses no verão.